BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, Mulher, de 36 a 45 anos
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Arabella Bella



Uma tentativa


Não acordou de bom humor. O telefone tocou logo cedo. Quer dizer, nem tão cedo assim. Eram mais ou menos 9h30, mas, para uma manhã de sábado, isso poderia ser classificado na categoria madrugada na vida de Arabella. No dia anterior tinha reunido a família em sua casa. Uma tentativa de fazer a energia circular em volta do seu mundo.
Arabella acreditava muito nessas coisas. Pensava e defendia que, se a gente deixa tudo como está, se opta por se fechar no próprio canto e ficar quieta, remoendo os problemas e repassando as mágoas e frustações, a energia que precisa circular para fazer as coisas acontecerem simplesmente pára. Arabella estava com medo que isso acontecesse.
Estava super satisfeita com os filhos, alegre e feliz com a felicidade deles, mas, no fundo, bem lá naquele cantinho que a gente guarda para nossas reflexões pessoais, ela sabia que o tempo estava passando e precisava fazer algo acontecer.
Essa onda de desemprego e de vida pessoal sozinha não podia durar. Pela primeira vez em sua vida, estava há mais de um mês sem emprego e isso a apavorava. As perspectivas eram grandes, a esperança maior ainda, mas, sabe quando já se começa a entrar naquela linha de desânimo. Quando começamos a pensar que nada vai acontecer e que entramos numa espécie de bolha de marasmo que faz com que o mundo esqueça que a gente existe? Era assim que Arabella se sentia naqueles dias.
Tentava não ser negativista, por isso mesmo, resolveu reunir a família e alguns amigos para cantar, dançar, jogar conversa fora. "A energia precisa circular, a energia precisa circular...", repetia para si mesma, enquanto abria as janelas, deixando a brisa da manhã invadir seu apartamento...
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Escrito por Arabella às 11h00
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Maldita Racionalidade


Como desejava ouvir novamente a voz dele a sussurrar em seu ouvido. Nem que fosse por telefone apenas. Toda vez que o aparelho tocava, ela ansiava por ser uma ligação dele. Alexandre estava levando a sério demais aquela história de não mais se falarem. "Eram, acima de tudo amigos", pensava Arabella mas também ela não dava o braço a torcer.
Naqueles dias de tamanha dificuldade. Naqueles momentos difíceis, ela desejava tê-lo próximo para conforta-la. Estava carente, setava só, estava triste.
Arabella pegou o telefone, discou o número pausadamente e esperou chamar... uma... duas... três vezes... do outro lado, atendeu uma voz de criança. Desligou na hora. Maldisse sua infeliz idéia de telefonar-lhe. Se odiava por ter sido pega num momento de fraqueza e por ter sucumbido. "E se tivesse bina na casa dele", pensou aflita e se odiou mais por tudo, por nada...
Não desistiu, ligou para o banco:
"Alô, por favor, eu gostaria de falar com Alexandre... é... isso... o gerente...".
Esperou por alguns segundos até que a pessoa perguntou:
"Ele está ocupado agora, quem gostaria de falar com ele?".
"É... uma amiga...", disse hesitante e com a voz quase sumindo.
"Quer deixar recado?".
"Não... não... eu ligo depois", respondeu.
Não ligou mais.
Do outro lado, a funcionária informou a Alexandre que haviam ligado para ele.
"Quem era?", perguntou.
"Não sei, não deixou recado... disse que era apenas uma amiga", disse a funcionária, finalizando o diálogo.
Alexandre, imediatamente lembrou de Arabella. Desejou ardentemente que fosse ela. Sonhou com o momento em que ela ligaria de novo para ele. Chegou a sorrir. Aquele sorriso de contentamento que acomete os lábios de quem ama e se recorda do ser amado há muito tempo ido. Uma lembrança boa, de tempos melhores ainda.
"Que bobagem, estou me iludindo à toa. Claro que ela jamais me ligará de novo. É uma mulher decidida. Disse que acabara tudo entre nós e assim tem sido. Tenho mesmo é que seguir a minha vida e deixar que o tempo nos separe cada vez mais um do outro", conformou-se e voltou aos seus papéis e formulários para assinar.
Não muito distante dali, Arabella chorava. Jogou-se em cima da cama e chorou feito criança. Se odiava por ser tão racional e por ter, em nome da racionalidade, acabado com tudo. Podia ter aceitado seguir com a história deles, juntos, amantes, amados. "Por que tinha que ser daquele jeito? Por que?", perguntava-se insistentemente, repetidamente...
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Escrito por Arabella às 13h27
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Arabella por Isabella e vice-versa


Estava precisando de ajuda. Pedia por isso. No olhar, nos gestos, na forma de falar. Arabella percebera isso desde o primeiro instante.  Olhara longamente para Isabella e vira ali uma pessoa que, em algum momento da vida, desviou o destino e perdeu o rumo das coisas. Não sabia como tinha acontecido.
Sempre estiveram distantes, sempre foram totalmente diferentes. Seus destinos, na verdade, nunca se cruzaram, a não ser pela forte e feliz coincidência de terem compartilhado a mesma barriga com apenas um ano de diferença. Sim, eram quase gêmeas. Nasceram com a diferença de exatos 365 dias. Nasceram, inclusive, no mesmo dia, no mesmo mês... a mesma data, portanto. "Que coisa, como poderiam ser tão diferentes?", se perguntava Arabella e lamentava que, por toda sua vida, tivera alguém tão próximo e tão distante ao mesmo tempo.
Arabella sempre fora a desgarrada, a independente, a contestadora. Isabella, mais frágil, um pouco mimada - na visão de Arabella - e isso, pouco a pouco foi afastando uma da outra. Eram como água e óleo.
Uma começou a trabalhar cedo, também casou cedo, teve logo seus dois filhos, se jogou no mundo de cabeça e partiu para uma vida dona do nariz, longe da família, 'ela por ela mesma', como sempre dizia.
A outra começou a trabalhar tarde quando já tinha mais de 30 anos, casou mais tarde do que a irmã, morou muito tempo - com o marido e, depois, com o filho - na casa da mãe.
Eram definitivamente diferentes... mas, eram irmãs e isto as fazia cúmplices de alguma forma. Agora, depois de anos de afastamento. Arabella estava de novo frente a frente com Isabella. Via tristeza no olhar da irmã. Via que alguma coisa se perdera. Apesar de ela, Arabella, estar enfrentando momentos tão difíceis em sua vida (estava desempregada, tendo que pagar as contas, com dois filhos para criar ¿ embora tivesse o total apoio do ex-marido, o fardo era grande porque ex-marido é sempre ex e as contas da casa dela contavam com o orçamento dela apenas), Arabella podia-se ver com mais alegria, com vontade de viver, fazer, realizar. Isabella, não. Estava buscando terapias, saídas espirituais, conforto em algum canto...
Arabella queria ajudar. Ainda não sabia como. Naquele momento, o que ela pode fazer foi sentar-se ali, na frente de sua irmã, e escutá-la. Dar toda a atenção do mundo e compreender que a vida nem sempre (ou quase nunca) é como a gente quer ou sonhou, mas, certamente, cabe á nós modificá-la e lutar por dias melhores... Arabella saiu daquele encontro decidida a ajudar...

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Escrito por Arabella às 11h09
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Carnaval da redenção

Arabella chegara em casa exausta. Tinha pulado e se divertido a noite toda. Aquele carnaval, para ela, tinha sido uma espécie de redenção. Entregara-se a ele como quem se dá ao carrasco, para ser bem dramática. A verdade é que ela já há algum tempo, ela não curtia mais os festejos de Momo, mas, naquele ano queria esquecer-se dos problemas e das preocupações do dia-a-dia, se entregando à festa.

Fazia pelo menos uns dez anos que não pulava carnaval. E, aceitou o desafio. Quis pagar para ver e ganhou a avenida. A jornada não foi fácil, ainda mais para alguém que estava fora de forma. Mas, conseguira um certo sucesso “com louvor”, como costumava dizer. Já tinha se esquecido como era bom poder se entregar àquela música e se deixar levar pela multidão.

Naquela noite, vivera momentos de terapia pura. Uma noite de folia valeu-lhe várias sessões de terapia. Ria com essa idéia, mas era exatamente assim que pensava e se sentia. Quando se entregou à festa parou de pensar em qualquer outra coisa. Queria se divertir. Não estava ali procurando ou se perdendo de nada. Simplesmente se entregando, curtindo, sendo...

Arabella já não queria mais pensar em Alexandre. O fato de terem terminado tudo ainda a incomodava. Amava-o e queria ser adulta o suficiente para não mais procurá-lo. Sabia que ele estava também na folia. Não sabia aonde, nem queria saber. Percebeu que ainda era bella o bastante para chamar a atenção de rapazes, homens, senhores... - sem distinção de idade. Ria com os galanteios.

Engraçado como as coisas acontecem quando não estamos esperando que aconteçam. Estava ali, na avenida simplesmente para se curtir e curtir a vida. Suava. O corpo molhado e as roupas grudadas na energia que despendia de seus movimentos faziam dela ainda mais sensual. Exalava alegria... Exorcizava...

Naquela noite, Arabella decidira que seria feliz. Era a última noite de carnaval, a terça-feira gorda. “Amanhã, não tem mais”, pensou. E aproveitou.  Por algumas horas foi extremamente feliz, sem se importar com o que os outros poderiam pensar, sentir, analisar, refletir.  Arabella sempre fora muito preocupada com a opinião dos outros, embora disfarçasse muito bem esse seu sentimento. Naquela noite, ela foi única, feliz, exuberante como nunca antes havia imaginado ser possível ser, estando sozinha, com ela mesma...

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Escrito por Arabella às 01h54
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